Nostalgia e esperança no blues e na vida psíquica.
Escrito por Edu Martins, músico, contrabaixista, compositor e arranjador e Raul Hartke, psicanalista, membro efetivo e analista didata da SPPA.
O blues surgiu no século XIX com os escravos do sul dos EUA, como uma derivação profana do spiritual e do gospel, canções religiosas dos afrodescendentes americanos. Sua estrutura musical disseminou-se no ocidente, constituindo o ponto de origem de boa parte das músicas populares de muitos países. O jazz e o rock são seus derivados mais diretos, mas está também nos fundamentos do country e da bossa nova (através do jazz). Essa extensa e persistente acolhida sugere uma ressonância com experiências emocionais básicas e importantes para o ser humano.
Seu elemento mais definidor é uma sequência harmônica, isto é, uma sucessão de acordes, com doze compassos divididos em três seções de igual duração. A sequência harmônica de uma música representa o caminho sonoro sobre o qual dançam as notas da melodia.
Ao longo destes compassos são dispostos os três acordes fundamentais do campo harmônico. O primeiro é o da tonalidade daquele determinado blues, o acorde do eixo harmônico daquela música, seu ponto de referência, conhecido como acorde da tônica.
O acorde do quinto compasso deve obrigatoriamente ser o do quarto grau (ou nota) daquela tonalidade, denominado subdominante. Seu aparecimento provoca no ouvinte uma sensação de afastamento em relação ao ponto de referência, mesmo que isso não lhe seja consciente.
Os últimos quatro compassos são constituídos pelo turnaround, formado por acordes que giram em torno do quinto grau da mesma tonalidade (designado dominante). Este último sempre provoca, musicalmente, uma sensação de ruptura e necessidade de retorno a algo do qual nos separamos, de tensão que exige resolução. Esta seção termina com o retorno ao acorde da tônica.
Os três principais acordes do blues possuem uma característica dominante por conterem o trítono ou quarta aumentada, um intervalo musical com a distância de três tons inteiros entre duas notas, como entre fá e si na escala de dó. Este intervalo é musicalmente instável, gerando sensação de inquietação, de ambiguidade. Na Idade Média, era cognominado diabolus in musica, proibido no canto religioso por despertar tais sensações.
O desenvolvimento desta sequência desperta no ouvinte a sensação de, nos quatro primeiros compassos, estar em determinado lugar, como sua casa (tônica), para, nos quatro seguintes, afastar-se dali (subdominante) e, após um tempo de tensão e desejo nos últimos quatro compassos (dominante), retornar ao ponto de partida (tônica).
Expressando metaforicamente tal percurso emocional pode-se dizer que os primeiros quatro compassos representariam, para o afroamericano escravizado, a África, sua terra mítica de origem. A seção seguinte, o afastamento forçado das origens. A última, com o clima harmônico gerador de tensão e a resolução final no mesmo acorde do início, evocaria primeiro a dolorosa escravidão na América mas, depois, a realização do desejo de retorno à casa matricial.
No que diz respeito à melodia, o blues utiliza as escalas pentatônica e blues. A pentatônica, talvez, a mais antiga e universal de todas as possíveis, é constituída por cinco tons ao invés dos sete da escala ocidental tradicional. Pode ser em tom maior ou menor. O blues privilegia o tom menor, mais triste e sombrio que o maior.
A escala blues desperta sensações descritas em inglês como down-home, earthy, bluesy, próprias desta forma musical. Funciona com alto grau de consonância nos acordes da mencionada sequência harmônica. Quando executada sobre acordes em tom maior gera a blue note, constituída pela imposição de uma terça menor sobre uma terça maior. O intervalo ou o acorde de terça maior provoca um sentimento de triunfo, de soberania. Evidentemente este sentimento não fazia parte do estado de espírito do afro-americano escravizado. Assim, seja por não conseguir senti-lo e, portanto, expressá-lo, seja por não desejar fazê-lo ou inclusive como uma forma de manifestar seu protesto, ele sobrepunha ao acorde branco contendo a terça maior uma terça diminuída que a contesta.
Outro elemento do blues é a improvisação. As frases da melodia e do canto blues geralmente não preenchem nenhuma de suas três seções harmônicas. Na maior parte dos casos vão apenas até o início do terceiro compasso de cada uma delas. O que resta é preenchido com a criação espontânea e pessoal de frases melódicas baseadas na harmonia subjacente. Estes breaks são a origem de toda a improvisação do jazz. O alto grau de consonância da escala blues com toda a sequência harmônica desta forma musical facilita e incentiva tais improvisações.
Os psicanalistas se deparam cotidianamente com desejos e frustrações que envolvem a fantasia de uma relação primordial com uma mãe idealizada, seguida de uma separação forçada e da perda desta condição paradisíaca primeva. Uma separação e uma perda geradoras de um permanente desejo de reencontrar alguém ou alguma situação que, de alguma forma, devolva aquela condição inicial. Essas fantasias ligadas à nostalgia por algo que nunca tivemos e à esperança de reencontro com alguma coisa que jamais alcançaremos são frequentemente deslocadas para um tempo posterior, na forma, por exemplo, de saudades da infância, adolescência ou de uma época supostamente melhor que o presente. O blues as satisfaria musicalmente.
Existe outro elemento interessante nessa estrutura harmônica: a presença do diabolus in musica, seu efeito dominante, em cada um dos acordes, inclusive no da tônica, isto é, na origem e no retorno, engendra uma constante sensação de inquietação e movimento. O blues propõe, assim, que nunca existe ou pelo menos não deveria existir, um repouso total, equivalente à morte. Há sempre um impulso para buscar outra situação, um desejo de algo diferente, que nos move para frente e, assim, contrabalança o também constante anseio de retorno a um repouso idealizado original. Pulsões de vida e de morte?
A improvisação, por sua vez, emocionalmente falando, permite ao intérprete vivenciar a experiência de, tendo como retaguarda uma matriz conhecida, poder desenvolver criativamente algo estritamente pessoal, uma diferenciação, isto é, sua própria individualidade.
O blues seria uma transformação sonora, metáfora musical destas experiências emocionais básicas. Assim, é possível que seu estudo aprofundado propicie novos insights sobre uma etapa fundamental do desenvolvimento psíquico.#8/Bio
Crédito imagem:
Ma Rainey and her band;
Publisher: Encycloédia Britannica